Uma empresa canadense e uma agência estatal japonesa firmaram uma parceria para pesquisar terras raras no Brasil, com foco em depósitos de terras raras pesadas. O acordo mostra que a disputa internacional já não envolve apenas reservas minerais: ela inclui financiamento, conhecimento geológico, direitos de compra e a construção de cadeias capazes de transformar o recurso em materiais para ímãs permanentes e outras tecnologias avançadas.
O que foi anunciado por Aclara e JOGMEC?
A canadense Aclara Resources anunciou, em setembro de 2026, uma joint venture com a Japan Organization for Metals and Energy Security (JOGMEC). A organização japonesa é uma agência governamental voltada à segurança de abastecimento de energia e recursos naturais considerados estratégicos.
Na primeira etapa, a JOGMEC poderá financiar até US$ 3 milhões em trabalhos de exploração ao longo de três anos. Sob determinadas condições, poderá acrescentar mais US$ 1,5 milhão e prolongar o período por um ano. Se cumprir os compromissos previstos, terá a opção de adquirir uma participação de 30% em um dos projetos desenvolvidos pela parceria no Brasil.
O comunicado também prevê direitos comerciais futuros: após a conclusão da etapa de aquisição de participação, a JOGMEC poderá comprar uma parcela da produção correspondente à sua participação, acrescida de mais 10% da produção futura do projeto. Esses direitos poderão ser transferidos a empresas ou consórcios japoneses, conforme os termos do acordo.
O Projeto Carina faz parte da parceria?
Não. O Projeto Carina, localizado em Goiás e considerado o principal ativo da Aclara no Brasil, foi expressamente excluído da joint venture. Segundo a empresa, ele continuará 100% sob seu controle.
Essa distinção é importante porque o acordo se concentra em novas oportunidades de exploração de depósitos de terras raras pesadas associados a argilas iônicas. Portanto, não se deve confundir a parceria Aclara–JOGMEC com uma aquisição de participação no Projeto Carina.
Por que o Japão está interessado nas terras raras brasileiras?
O Japão possui uma indústria avançada em setores como eletrônica, mobilidade, automação e equipamentos de alta tecnologia, mas depende de cadeias internacionais para obter diversos minerais críticos. A JOGMEC atua justamente na redução desse risco, oferecendo financiamento, conhecimento geológico, assistência técnica e mecanismos de compartilhamento de risco.
Ao financiar a pesquisa mineral no Brasil, a organização japonesa busca criar uma possível fonte futura de abastecimento fora das cadeias hoje mais concentradas. O direito de compra previsto no acordo conecta a fase de exploração a um mercado consumidor industrial já existente.
A aproximação não começou agora. Em março de 2026, o Governo de Goiás e a JOGMEC assinaram um memorando de entendimento para cooperação em pesquisa, processamento e desenvolvimento de minerais críticos. A nova parceria empresarial reforça o interesse japonês no potencial geológico brasileiro, sem garantir antecipadamente que todas as áreas pesquisadas se transformarão em projetos economicamente viáveis.
O que são terras raras pesadas e por que elas importam para os ímãs?
Terras raras são um grupo de 17 elementos químicos. Na fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho, os elementos mais conhecidos são o neodímio e o praseodímio, usados na composição de ímãs de neodímio-ferro-boro, também chamados de NdFeB.
Algumas aplicações de maior exigência térmica podem empregar terras raras pesadas, especialmente disprósio e térbio, para ajudar o material magnético a preservar coercividade e desempenho em temperaturas elevadas. O uso exato varia conforme o projeto do ímã, a classe magnética, o processo industrial e a aplicação final.
| Elemento | Papel na cadeia de ímãs | Exemplos de aplicação |
|---|---|---|
| Neodímio (Nd) | Componente fundamental dos ímãs NdFeB. | Motores, sensores, automação, eletrônicos e geradores. |
| Praseodímio (Pr) | Pode integrar ligas magnéticas juntamente com o neodímio. | Ímãs permanentes de alta potência. |
| Disprósio (Dy) | Pode contribuir para a estabilidade magnética em temperaturas mais altas. | Motores e equipamentos submetidos a maior exigência térmica. |
| Térbio (Tb) | Utilizado em formulações e processos especializados de materiais magnéticos. | Aplicações avançadas com requisitos elevados de desempenho. |
Para entender formatos, classes, revestimentos e aplicações comerciais, consulte também o guia completo sobre ímãs de neodímio.
Da pesquisa mineral ao ímã existe uma cadeia longa
Encontrar uma ocorrência mineral é apenas o começo. Entre a pesquisa de uma área e a fabricação de um ímã pronto existem várias etapas técnicas, industriais, ambientais e comerciais.
A própria Aclara afirma que pretende construir uma cadeia verticalmente integrada. Seus planos incluem uma unidade de separação de terras raras nos Estados Unidos e uma parceria voltada à produção de ligas usadas em ímãs permanentes. Isso ilustra um desafio central para o Brasil: possuir o recurso geológico não significa, por si só, dominar as etapas industriais de maior valor agregado.
O que a parceria representa para o Brasil?
O acordo confirma que o Brasil está sendo observado como alternativa para diversificar o fornecimento mundial de minerais críticos. O país reúne potencial geológico, projetos em diferentes estágios e proximidade comercial com economias interessadas em reduzir riscos de abastecimento.
Ao mesmo tempo, o anúncio mostra como a cadeia pode ser internacionalizada: a pesquisa e uma eventual mineração podem ocorrer no Brasil, enquanto separação, refino, produção de ligas, fabricação de ímãs e consumo industrial podem ser distribuídos por outros países.
O resultado econômico para o Brasil dependerá de quais etapas conseguirão ser desenvolvidas localmente, da viabilidade dos depósitos, dos processos de licenciamento, da infraestrutura, do conhecimento técnico e da existência de compradores. Como os projetos ainda estão em fase de exploração, valores, prazos, reservas e produção futura permanecem condicionais.
Como esse acordo se diferencia do caso Serra Verde?
A Serra Verde, em Minaçu, Goiás, já opera na extração e produção de concentrado de terras raras. A parceria entre Aclara e JOGMEC, por outro lado, está voltada à pesquisa e ao desenvolvimento de novas oportunidades e exclui o Projeto Carina.
Os dois casos fazem parte do mesmo movimento internacional de diversificação, mas estão em estágios e estruturas diferentes. Essa comparação ajuda a compreender por que anúncios sobre terras raras precisam ser analisados com cuidado: uma pesquisa geológica, um projeto em desenvolvimento e uma operação produtiva não são equivalentes.
Perguntas frequentes
Canadá e Japão já começaram a produzir terras raras no Brasil?
Não. O acordo anunciado trata de financiamento e cooperação para exploração mineral. Uma eventual produção dependerá de descobertas, estudos, viabilidade, licenciamento, investimentos e desenvolvimento do projeto.
Quanto a JOGMEC poderá investir?
A previsão é de até US$ 3 milhões durante três anos, com possibilidade de mais US$ 1,5 milhão e extensão por um ano, conforme condições descritas no acordo.
O Japão comprou 30% do Projeto Carina?
Não. O Projeto Carina ficou fora da parceria. A JOGMEC poderá, após cumprir os compromissos, adquirir 30% de um dos projetos de exploração abrangidos pela joint venture.
Por que terras raras pesadas são relevantes para ímãs?
Elementos como disprósio e térbio podem ser empregados em materiais magnéticos destinados a condições de maior exigência térmica. Eles não substituem o neodímio, mas podem contribuir para determinadas formulações e processos.
O Brasil já fabrica ímãs de terras raras em grande escala?
O país possui reservas e projetos minerais, mas ainda não consolidou em grande escala toda a cadeia de separação, refino, ligas e fabricação de ímãs permanentes. Por isso, mineração e indústria de ímãs devem ser analisadas como etapas distintas.
